Crônica #17 – A mágica

Certa vez, enquanto passeava por uma dessas redes sociais que permite a publicação de fotos ou de vídeos curtos que ficam disponíveis por 24 horas – difícil encontrar na realidade atual alguma que não possua tal ferramenta –, deslizando o dedo lateralmente pela tela, da direita para a esquerda, quando a foto não me agradava, segurando quando continha algum texto ou outra característica que me chamava atenção, retornando quando percebia que algo poderia ter passado despercebido, me deparei com algo que me prendeu a atenção.

Entre aqueles que seguimos há sempre alguns perfis dos quais a origem do seguimento desconhecemos. Discordo de quem, quando percebe sua procedência improcedente, desfaz o ato de acompanhá-lo. Da janela do meu apartamento, além de alguns edifícios que só se diferenciam por sua altura ou cor, tenho em primeiro plano uma longa avenida, cuja lonjura impede o observador de enxergar seu fim. É uma das poucas avenidas arborizadas de Londrina. Seu canteiro central é enfeitado por belas árvores de grande porte. Todas são extremamente parecidas. Contudo, mantendo o porte, mas variando a cor, destaca-se um imponente ipê-rosa. O destaque por ele obtido só é possível graças à monotonia das árvores vizinhas. Se ipês-rosa infestassem a avenida de fora a fora, aquela bela espécie perderia sua relevância. Ainda seria um ipê-rosa, porém, mais um entre os outros. O mesmo papel exercido pelas árvores vizinhas exercem os improcedentes, realçando as publicações de pessoas próximas, de procedência conhecida. Imagine se todas as árvores que não são ipês-rosa fossem derrubadas para que eles reinem soberanamente. Perceberá, então, que se tonaram banais aqueles que antes eram esplendorosos. O anseio desenfreado pela raridade culminaria em vulgaridade.

Antes de encerrar esta digressão – esta é uma tese que me é cara, ainda a tratarei sob a perspectiva dos britânicos Scruton e Chesterton –, recordo ainda das leis naturais do mercado que põem às claras esta lei natural. Uma baixa oferta implica em um alto valor. Ora, se entre meia centena de árvores, apenas cinco são ipês-rosa, representando apenas dez por cento do total, seu valor de mercado é superior àquele que receberia no caso de derrubada das árvores comuns, pois seriam agora cem por cento das árvores ofertadas para apreciação.

Entre um story banal e outro, um especial me chamou tardiamente a atenção. Teria seguido o ritmo natural de avanço de stories – que propicia uma forte tendência a termos lesão por esforço repetitivo nos dedos – se não tivesse me tocado do que acabara de ver. Era uma atraente mágica. Toda mágica é um mistério. É próprio do mistério atrair o coração do homem, seja na busca por uma solução, seja na sua contemplação. É ele que une detetives e religiosos – e toda gama de homens comuns que gastam horas acompanhando uma produção cinematográfica impulsionados pelo desejo de descobrir o que há por trás de um crime. Aquele truque, além da atração inerente que causa ao ser humano, trazia consigo o elemento pecuniário que faz brilhar os olhos dos homens. Como se não pudesse agravar o fascínio, a mágica transformava uma nota de menor valor em uma de maior valor.

A junção daqueles elementos encantou meus olhos e, movido por eles, estava prestes a reagir à postagem, na esperança de descobrir algo sobre o mistério mesmo sem conhecer seu autor, quando percebi que de desconhecido quem publicou não tinha nada. Logo, sem escrúpulos, solicitei ao amigo mágico que fizesse truque semelhante com alguma de minhas notas. Ele, prontamente, acatou, pedindo apenas que eu a enviasse. Havia apenas um problema. Algumas centenas de quilômetros nos separavam.

Dá para contar nos dedos das mãos quantas vezes nos vimos pessoalmente, mas a rede social fez com que isso não importasse muito. Como o mesmo fogo que destrói a mata também livra-nos do frio, podendo ser bom ou não dependendo da maneira como é empregado, o Instagram revelou-se como um aquecedor a espantar a frieza da lonjura.

Quis a Providência que estivéssemos passando por momentos semelhantes. Também ele se casará em breve. Assuntos matrimoniais tornaram-se clichê em nossas conversas. Convites, presentes, futuro lar e, principalmente, a benevolência divina que não nos desamparava. Lembro-me de uma noite que conversávamos sobre convites, partilhando nossos modelos. Apesar de sermos os dois a conversar, nossas noivas estavam presentes e, mesmo sem falar, participavam com o coração daquela conversa – prefigurando o “uma só carne”.

Poderia dizer que atrasei para enviar minha parte da mágica, mas prefiro pensar que o fiz no tempo certo, pois junto a ela estava não um modelo genérico do nosso convite para que vissem de perto seu design, mas um chamado de um coração de amigo que desejava que fizessem parte daquele momento único na nossa vida.

Semana passada recebemos sua parte da mágica. Além de um belo presente que certamente usaremos para chás, cafés e até mesmo chimarrões – sim, é este seu plural – não comuns da nossa região, mas para bem os acolhermos quando vierem nos visitar.

Na carta, assinada pelo casal de amigos toledenses, uma frase saltou diante dos meus olhos: “Se olhar do outro lado da caixa, verá que mágica funcionou”. Meus caro Higor e Fabi, certamente funcionou. Contudo, uma maior mágica foi a que propiciou nossa amizade. Só magia pode explicá-la. Não um truque, uma ilusão, mas a mesma magia verdadeira que percorre o mundo desde o princípio, unindo homens distintos rumo a um mesmo destino, que flui do Mágico primeiro.