A acolhida e a Compadecida

Há algumas semanas passei a ajudar na acolhida da minha igreja. Colete azul, borrifador de álcool, máscara e o sorriso com os olhos são nossos instrumentos de trabalho. Aquela passagem onde diz que a messe é grande mas os operários são poucos aplica-se bem à pastoral. E aplica-se duplamente, afinal a quantidade de afazeres aumentou nestes dias ao mesmo tempo em que os operários trabalham em número reduzido. Até o Glória – ou, durante o Advento, até o ato penitencial –, duas das três portas permanecem fechadas, direcionando o fluxo de fiéis para a porta restante e central, facilitando a higienização de todos.

Àquele que enfada-se com facilidade, a repetição de borrifadas, bom dias e “paz de Cristo” pode parecer uma atividade monótona. Graças ao bom Deus não é esse meu caso. A aspiração a cronista que volta e meia me bate à porta afasta o tédio da mais maçante repetição, especialmente porque, apesar das minhas três ações serem sempre as mesmas e de sempre ir e trabalhar na Missa das dez horas da manhã de domingo, como a luz de uma lanterna que varia sua reflexão de acordo com a superfície em que incide, a reação à elas deve ter ao menos uma centena de variações semanais.

Depois de alguns domingos com apenas uma das portas abertas, hoje abrimos mais uma. Desta vez não estive na porta central, mas em uma das portas laterais que dava para o estacionamento. Minha visão tinha em primeiro plano a rampa com seus corrimãos e algumas folhagens no jardim que, como um senhor bem observou, assemelham-se a coroas de gigantescos abacaxis. De frente comigo, mas mais distante, estava uma das entradas do estacionamento que, por sua vez, dividia-se em um semicírculo circundando a frente da igreja e um anexo lateral, retangular e mais convencional. Ambas as partes eram revistadas de paralelepípedos. Na parte anexa e lateral, localiza-se uma bela gruta com uma imagem da Virgem – algo comum em templos católicos. De onde eu estava, via lateralmente a gruta, alguns bancos de cimentos posicionados à sua frente à sombra de algumas árvores, cercada por baixas grades brancas.

Duas portas abertas dividiram o movimento. A porta central ainda concentrava a porção de pessoas que entraria pela lateral fechada, ou seja, os meus acolhidos eram em menor número. Pude observar com mais calma não apenas os que estavam entrando, mas também a movimentação desde a entrada do estacionamento. Entre uma paz de Cristo e outra, vi que um senhor de idade que entrara a pé pela entrada dos carros não veio na direção da entrada do templo. Uma moça perguntou-me sobre os banheiros e a direcionei. Quando voltei o meu olhar o idoso, já não estava mais próximo à entrada, mas parado, sob a sombra das árvores, de pé, em frente à gruta, de cabeça baixa, piedosamente recolhido. Estava só. Vestia camisa e calça sociais, cinto e sapato. Os poucos cabelos que tinha eram brancos. Alguns minutos depois saíra de lá, vinha na minha direção. Apesar de estar atendendo os que chegavam, pude, de esguelha, vê-lo traçando sobre si o sinal da cruz antes de deixar a gruta.

Como se a cena fosse reprisada, outro senhor de idade avançada, vestindo camisa, calça, sapatos e cinto, entrara pelo estacionamento e dirigira-se à gruta. Se não fosse o boné à cabeça e camisa de cor diferente, creria ser um déjà-vu. Antes de achegar-se à grade branca retirara o boné, segurando-o lateralmente junto ao corpo. Quase encostado ao baixo portão da grupa, ergueu o boné à altura do peito, ajuntando-o a ele. Recolheu-se também com piedade, baixando a cabeça diante da Virgem. Terminada sua prece com o sinal da cruz, dirigiu-se à minha entrada e pediu-me que lhe desse um dos abacaxis gigantes que estavam enterrados no gramado. Demorei para perceber que referia-se às folhagens que assemelhavam-se às coroas de abacaxis, mas agora não consigo olhá-las sem imaginar que debaixo da terra frutas gigantes se escondem.

Mais senhor chegara. Talvez alguns anos mais novo do que os outros. Se aqueles pareciam estar no meio dos setenta, este aparentava ter recém entrado nos sessenta. Diferente dos outros dois, estava de carro. Já o vira outras vezes na Missa das dez. Seu estilo era peculiar. Enquanto os outros estavam de social, vestia-se com um uniforme – camiseta e shorts – rubro-negro que sempre pareceu-me ser do Flamengo, mas descobri ser de um time do interior do estado de São Paulo; os outros tinham cabelo penteado e barba feita, enquanto este senhor, digamos que não tinha. Se o viessem na rua e não conhecessem-no, algumas madames iriam para a outra calçada. Sempre sorridente, apesar da máscara, e, como já disse, sempre o via na Missa das dez. Apesar de vê-lo chegar, percebi que sempre tardava a entrar. Estacionava onde o alcance da visão da porta central não chegava. Da porta lateral, contudo, podia plenamente vê-lo, sob a sombra das árvores, em frente à gruta, diante da Virgem. Após algum tempo de pé, sentou-se em um dos bancos, acenou-me e aguardou até que o horário da Missa se aproximasse mais e então veio – e descobri de qual time era o uniforme.

Provavelmente nenhum dos três era teólogo, mas certamente conheciam a mais alta teologia. Lembrei-me de um trecho do famoso auto do Suassuna:

João Grilo, ao Encourado

Está vendo? Isso aí é gente e gente boa, não é filha de chocadeira não! Gente como eu, pobre, filha de Joaquim e de Ana, casada com um carpinteiro, tudo gente boa.

Manuel

E eu, João? Estou esquecido nesse meio?

João Grilo

Não é o que eu digo, Senhor? A distância entre nós e o Senhor é muito grande. Não é por nada não, mas sua mãe é gente como eu, só que gente muito boa, enquanto eu não valho nada. Mas com toda desgraça, acho que sou menos ruim do que o sacristão.

A Compadecida

Intercedo por esses pobres que não tem ninguém por eles, meu filho. Não os condene.