Alegres em Cristo

A alegria pascal

Cristo ressuscitou, aleluia! Sua ressurreição completa aquele trio de eventos que isolados não teriam sentido algum. Se apenas ressuscitasse após uma morte qualquer não teria nada que o diferenciasse de algum outro taumaturgo. Também não seria mais do que Lázaro, enfermo, falecido e ressuscitado. Lázaro, porém, apesar de amigo do Senhor, santo e de família santa, não dividiu a história entre o período que o precede e o que o sucedesse. O mesmo que se diz a respeito da ressurreição poderia ser dito da dupla morte e ressurreição. Ora, se há um retorno à vida, houve uma ida à morte. Sua morte, também isolada, não seria mais do que estatística. A paixão, também solitária, não seria mais do que um drama comum a todo homem. A dupla paixão — e sofrimento — e morte poderia fazê-lo um mártir. A ressurreição, porém, quando se segue às outras duas põe fim a narrativa de que Cristo fora um revolucionário, mártir político, morto por ser fiel à sua causa ideológica. Ideologia nenhuma remove a pedra do sepulcro. As mais diversas costumam cavar sepulturas.

Como uma superfície para ser perfeitamente sustentada precisa de três apoios, como um plano não pode ser construído senão com ao menos três pontos, Paixão, Morte e Ressurreição constituem uma única realidade redentora. A Paixão não consiste de um sofrimento vão, mas expiatório. A Morte não é o final, mas o começo. A Ressurreição não é um evento isolado, mas um sinônimo de fertilidade. O grão de trigo morre para dar fruto. Cristo ressuscita como primícias, como o começo e não final, como se pavimentasse e inaugurasse uma estrada em que, apesar de ser o primeiro a atravessá-la, não seria o último.

Lembro-me de uma noite de sábado, onde aguardávamos o início do grupo de oração acolhendo os participantes no portão do salão paroquial e o pároco havia chegado para pegar seu carro que havia estacionado no pátio do salão. O tema do grupo daquela noite era alegria. Quando avistamos o padre Jorge, um dos que estavam também por ali na acolhida se precipitou ao encontro do sacerdote, seguido por todos os outros. Aproximando-se, seguido ao pedido de benção, fez uma pergunta: “O que é a alegria do cristão? ”. Não respondeu de imediato. Era como se a pergunta ecoasse dentro de si e o fizesse refletir profundamente. Seu olhar, antes voltado aos rostos dos que aguardavam uma resposta, voltou-se ao nada. Olhava para algum lugar entre o chão e a parede, mas digo que olhava para o nada porque pouco importava para onde estava olhando. Não era com os olhos de fora que procurava uma resposta, mas parecia olhar interiormente, buscando uma resposta que não fosse fútil ou algum lugar comum. O eco interior vinha à tona quando com seu sotaque de peruano repetia inconscientemente “a alegria do cristão”. Depois de alguns segundos, voltou seu olhar a nós. Estranhamente, mesmo estando em muitos, parecia conseguir olhar nos olhos de todos ao mesmo tempo. Não era um olhar disperso, mas fixo, certeiro, como também foi certeira sua resposta. Era de baixa estatura, mas de personalidade forte. Sem precisar elevar seu tom de voz, tinha nossa atenção naquelas breves palavras. Disse então com seu sotaque espanhol algo que parece ter buscado no mais profundo de suas décadas de sacerdócio, “a alegria do cristão é Cristo”. Ninguém disse mais nada após suas palavras, nos bastaram suas poucas, mas acertadas palavras.

A Páscoa, ápice da vida de Cristo, é também a manifestação maior da alegria cristã. Chamei esta reflexão de Alegres em Cristo porque gostaria de me debruçar um pouco sobre esta alegria, ou melhor, de refletir criticamente a respeito de uma visão restrita contemporânea desta alegria e do papel do leigo na Igreja de Cristo.

Alguns carnavais

Desde já justifico uma possível longa extensão deste texto, pois, como bem disse o Raul Martins, o Brasil inteiro é um perpétua e continental carnaval de impressões. Se eu escrever que prefiro cachorros à gatos, não serão poucos os leitores partidários de felinos que se perguntarão por que eu não gosto de gatos, como também não serão gatos pingados os partidários de caninos que se inflamarão com uma simples preferência pessoal, valendo-se dela para justificar seu ódio por bichanos. Pouco importa o que eu quis dizer, muito importa a opinião pessoal do leitor, através da qual filtrará tudo o que disser. Apesar de ser algo acentuado em terras tupiniquins, o fenômeno das impressões atinge todo o globo – e não o plano. Basta olhar para a deturpação socialista da caridade cristã. A opção preferencial pelos pobres é vista na perspectiva da luta de classes. Cristo é um promotor da revolução. Pouco importa o que diz a Igreja, muito importa o que o socialista quer enxergar nela. Por esse carnaval de impressões, terei de dizer agora que o mesmo se sucede com um liberal que enxerga na defesa cristã da propriedade privada uma cruzada contra o Estado. Perceba que tive de colocar como que uma nota de rodapé ao exemplo socialista uma crítica ao liberalismo para que socialistas não pensem negativamente – a partir de suas impressões – que sou libera, como também para que liberais não usem da minha crítica a posição socialista para me enxergarem como um liberal. Vejam que tive de adicionar também uma nota de rodapé à nota de rodapé, procedimento que terei de usar recorrentemente no decorrer do texto para lutar contra o famigerado carnaval.

O Carnaval, aliás, mas agora a festa popular – e cristã – parece-me um bom ponto de partida. Ocasionalmente são organizados nas paróquias retiros nessa época do ano. Os dias de recesso são aproveitados para a organização de retiros mais longos, que não poderiam ser realizados em finais de semana convencionais. Além disso, de bom grado, seus organizadores percebem uma oportunidade ímpar para ofertar uma opção às festas pouco – e por vezes nada – sadias dessa época do ano, fazendo-se valer do chamado que todo cristão tem a anunciar o Evangelho a toda criatura. Ora, não há problema algum na opção por essa atitude frente ao Carnaval. O problema, contudo, começa a surgir quando seus adeptos pretendem apresentá-la como única frente às festividades, especialmente quando alegam que o que experimentam nos retiros é a verdadeira alegria. Não discordo que, se nos retiros ocorrem autênticos encontros com Cristo, de fato experimentam os participantes a verdadeira alegria. Minha crítica à postura diz respeito à visão de uma única maneira de experimentá-la. Esses partidários dos carnavais com Cristo, numa atitude que beira ao puritanismo, não conseguem enxergar como católica qualquer opção exceto a sua. Sua atitude, porém, não se restringe ao episódio carnavalesco, mas corresponde a uma forma particular de enxergar o catolicismo que joga em balaio repugnante chamado “mundo” tudo aquilo que não pertence explicitamente à esfera religiosa.

Canto, arte e dança são moralmente neutros, ou seja, não são essencialmente pecaminosos, podendo ser ou não dependendo da intenção em que são empregados. Pertence também à esfera neutra a bebida alcóolica, outro alvo dessa visão peculiar da moral católica. Apenas seu mau uso – a embriaguez – é condenável. Talvez seja um ponto que eu retome em outro texto específico para falar desses abstêmios. Frente à bebida, tanto a opção do abstêmio quanto a do que bebe sem deixar de lado a sobriedade, são católicas. São posições aparentemente contrárias, mas ambas católicas, pois, como a própria etimologia da palavra sugere, o catolicismo abarca o todo. O mesmo problema do carnaval ocorre quando o abstêmio procura impor sua opção como a única possível e aceitável. O puritano não é o que olha para o concupiscente e procura corrigir o seu erro, mas aquele que vê o erro pela falta de regras morais e erra pelo seu excesso. Não contente em errar sozinho, com sua aura de santidade, procura, como os notórios fariseus do evangelho, impor sua opção particular como regra universal.

Estou longe de crer que é com a intenção de pecar pelo excesso que o puritano age, mas como fruto de seu zelo. Os puritanos fazem com o carnaval o mesmo que fazem com a bebida, cortam a árvore pela raiz para combater a praga que a devorava, matam o sedento para impedir que beba o veneno.

Abarcar o todo

Continuarei me atendo ao Carnaval para que as atitudes dos adeptos dessa visão particular do catolicismo permaneçam palpáveis, fugindo, por ora, do campo da abstração. Vale a pena trazer um pouco das possíveis origens da festa. Como aponta D. Estevão Bettencourt OSB, três são as explicações da terminologia empregada:

Comumente os autores explicam este nome a partir dos termos do latim tardio «carne vale», isto é, «adeus, carne» ou «despedida da carne»; esta derivação indicaria que no Carnaval o consumo de carne era considerado lícito pela última vez antes dos dias de jejum quaresmal. — Outros estudiosos recorrem à expressão «carnem levare», suspender ou retirar a carne: o Papa São Gregório Magno teria dado ao último domingo antes da Quaresma, ou seja, ao domingo da Quinquagésima, o título de «dominica ad carnes Ievandas»; a expressão haveria sido sucessivamente abreviada para «carnes levandas, carnelevamen, carnelevale, carneval ou carnaval». — Um terceiro grupo de etimologistas apela para as origens pagãs do Carnaval: entre os gregos e romanos costumava-se exibir um préstito em forma de nave dedicada ao Deus Dionísio ou Baco, préstito ao qual em latim se dava o nome de currus navalis: donde a forma Carnavale (Pergunte e Responderemos 005).

A Igreja, como também nota o monge beneditino, não instituiu o Carnaval, mas o considerou suscetível de interpretação cristã, subordinando-o aos princípios evangélicos. Como em Santo Tomás houve o batismo de Aristóteles e nos padres da Igreja o de Platão, há também uma espécie de batismo carnavalesco, onde a Igreja enxerga como católica sua alegria característica. A alegria, por sua vez, é um dom de Deus que restaura nossas forças e nos lembra a dignidade de nossa criação e de nossa redenção, como bem disse Dom Eurico Veloso. Tais batismos fazem parte da essência do catolicismo: abarcar o todo. Santo Tomás ensina que se pode perfeitamente lançar mão da autoridade dos filósofos pagãos nos assuntos em que pela razão natural puderam conhecer. São Justino Mártir não se valia de argumentos bíblicos – o cânon bíblico seria definido mais de duzentos anos após sua morte – para convencer as autoridades romanas da verdade cristã, mas daquilo que conheciam do culto pagão, da filosofia e também da mitologia para lhes mostrar como essas fontes eram sombras da verdade que no cristianismo encontrava sua plenitude. Ele via os pagãos, mesmo os que perseguiam cristãos, como portadores de sementes do Verbo – logos spermatikos –, que Deus havia neles plantado sua verdade, mas que precisavam do correto cultivo para que crescessem. É evangélico que até as pedras podem dizer a verdade.

Há ainda um outro batismo que é válido mencionar. Um dos movimentos mais presentes nas paróquias brasileiras é a Renovação Carismática Católica. Por mais que haja primícias nas correspondências entre a Beata Helena Guerra e Leão XIII, por mais que o Vaticano II falasse de um novo Pentecostes, as experiências que reavivam a prática dos carismas tomam sua forma no meio Protestante – inaugurando o seguimento pentecostal. Um dos livros base para o retiro de Duquesne – tido como a pedra angular da renovação carismática – é um livro protestante. Em 1º de janeiro de 1901, Leão XIII invoca publicamente o Espírito Santo. Novamente, com o grande apologista D. Estevão, digo que a resposta foi dada por comunidades protestantes antes das católicas (Pergunte e Responderemos 532), o que de forma alguma minimiza a catolicidade da manifestação dos carismas. É novamente necessário que haja um batismo, que haja como que um trabalho de escultor, retirando os excessos, talhando a matéria bruta, a fim de que reste apenas o que há de católico nesta corrente de graça.

O problema da visão particular e o real apostolado do leigo

Em contraposição ao catolicismo real e universal – que abarca o todo –, há a visão católica particular que me fiz valer do exemplo carnavalesco para torná-la palpável. O aspecto mais comum a ela é o desprezo que tem de tudo o que está ligado ao “mundo”, tudo o que é secular. Se não enxerga alguma estampa religiosa visível no assunto, considera-o vão. Preza pela exterioridade sacra. Despreza o ordinário. Enxerga a vida comum – a vida real –, o cotidiano, o serviço como um peso a carregar, aliviado apenas quando o final de semana se aproxima e é possível exercer alguma função de caráter religioso. Pouco se empenha no trabalho para poder dedicar-se com afinco nas atividades ministeriais. Dedica-se mais ao trabalho pastoral que à família e o faz biblicamente embasado.

deusa-temis-themis

A titânide Têmis, filha de Urano e de Gaia, era a deusa da justiça na mitologia grega. Sua representação a coloca empunhando uma balança, através da qual equilibra a razão com o julgamento. Algumas vezes é representada com os olhos vendados para designar imparcialidade. Foi adotada como símbolo da justiça. A balança que carrega me recorda também o catolicismo e a sua universalidade, pois, na justa medida, distribui corretamente os pesos de materiais distintos a fim de encontrar um equilíbrio. Uma das missões do Concílio Vaticano II foi uma nova ponderação desses materiais, para que de forma equilibrada a Igreja pudesse rever sua forma de se relacionar com o mundo. Um dos pontos onde a balança parecia pender para um único lado era no que diz respeito aos ministérios laical e sacerdotal, onde este parecia ser provido de maior dignidade do que aquele. Hoje pode-se perceber um maior engajamento dos leigos nas atividades paroquiais. Como na balança por pesos o equilíbrio não é obtido colocando em um dos pratos três pedaços de madeira e três pedaços de ferro de mesma medida no outro, não bastava que as funções dos leigos e dos ministros ordenados fossem simplesmente igualadas. Ambos eram chamados a santidade, mas cada um possui seu caminho para alcançá-la.

Certamente, a constituição dogmática Lumen Gentium (LG) é um dos documentos chaves do concílio. O chamado universal à santidade é posto às claras no seu capítulo quinto. Ministros ordenados, religiosos e leigos: todos chamados à santidade. Ocorre que os padres conciliares tiveram o cuidado de antes de culminar no chamamento universal, distinguir com cuidado o caminho que competia aos ministros ordenados (cap. 3) e o que competia aos leigos (cap. 4). Ambos são chamados a alcançar o cume da montanha, cada um, porém, a escala por um caminho. Por mais que os caminhos ora se cruzem e ora se alinhem, ainda são particulares à vocação a qual cada um foi chamado. Ainda que algumas vezes os ministros ordenados possam tratar de assuntos seculares, exercendo mesmo uma profissão profana, como a de um sacerdote professor universitário, em razão de sua vocação específica, destinam-se sobretudo e expressamente ao sagrado ministério. Enquanto aos leigos é própria e peculiar a característica secular. A eles busca primária do Reino de Deus se dá tratando das realidades temporais, ordenando-as segundo Deus. Estou praticamente parafraseando o luminoso parágrafo 31 do documento. A vocação primária do leigo é ordenar-se a Deus exercendo o seu próprio ofício, guiado pelo espírito evangélico.

Não faria sentido ser diferente. Enquanto o sacerdote dispõe de seu tempo integralmente para dedicar-se às coisas sagradas, o leigo não possui mais do que uma pequena fração de seu tempo – na maioria das vezes finais de semana – para cuidar dessas coisas. Não faria sentido restringir sua vocação à santidade ao pouco tempo que lhe resta para cuidar de assuntos religiosos. Retamente ordenado, a existência do leigo é, nas palavras da Lumen Gentium, tecida nas condições ordinárias da vida familiar e social. É aí, onde sua existência é tecida, que pode contribuir para a edificação do Reino. Quando foge daquilo que é chamado, não contribui para o que São Paulo chama de crescimento do corpo de Cristo:

“Praticando a verdade na caridade, cresçamos de todas as maneiras para aquele que é a cabeça, Cristo; pelo influxo do qual o corpo inteiro, bem ajustado e coeso por toda a espécie de junturas que o alimentam, com a ação proporcionada a cada membro, realiza o seu crescimento em ordem à própria edificação na caridade” (Ef. 4, 15-16)

A coesão do corpo ocorre quando cada membro compreende seu papel e procura executá-lo. Se o coração optar por oxigenar o sangue, papel do pulmão, o sangue deixará de ser bombeado para o corpo todo. Uma das funções vitais do corpo deixa de ser executada, colocando-o em risco. O processo de clericalização do leigo prejudica de forma semelhante o corpo de Cristo, pois seu chamado próprio é se tornar Igreja presente e ativa naqueles locais e circunstâncias em só por meio delas ela pode ser o sal da terra (cf. LG, 33). Aquilo que parecia uma despretensiosa reação de um carola frente a uma festividade popular, na realidade é a ponta de um iceberg, cuja parte imersa na água é a equivocada compreensão de sua vocação.

Como já me referi que recorreria recorrentemente às notas de rodapé, escrevo mais esta para dizer que de forma alguma estou dizendo que a Igreja se opõe ao leigo que procura espalhar o Reino à maneira dos ministros ordenados, como pela pregação, mas que não é esta sua forma própria de o fazer, podendo ser um adendo, mas nunca preterindo a via ordinária. A Lumen Gentium toma o cuidado de apresentar essa possibilidade como um anexo, uma exceção, uma via extraordinária: 

“E se há alguns que, na medida do possível, suprem nas funções religiosas os ministros sagrados que faltam ou estão impedidos em tempo de perseguição, a todos, porém, incumbe a obrigação de cooperar para a dilatação e crescimento do Reino de Cristo no mundo” (LG, 35).

Além deste apostolado (da presença ativa nos meios seculares), que diz respeito a todos os fiéis, os leigos podem ainda ser chamados, por diversos modos, a uma colaboração mais imediata no apostolado da Hierarquia, à semelhança daqueles homens e mulheres que ajudavam o apóstolo Paulo no Evangelho, trabalhando muito no Senhor (cfr. Fil. 4,3; Rom. 16,3 ss.). Têm ainda a capacidade de ser chamados pela Hierarquia a exercer certos cargos eclesiásticos, com finalidade espiritual” (LG, 33)

Não todos, mas alguns, diz o primeiro trecho. Além do que diz respeito a todos os fiéis, diz o segundo.

Ser versus parecer

Costumo não escrever tanto assim, mas o assunto me pareceu merecer tal discussão e aprofundamento. Espero que ainda tenha restado ao leitor um pouco de fôlego para finalizarmos. Antes, porém, quero fazer um apanhado do que tratei nos parágrafos anteriores. A motivação para esse texto é a alegria cristã que encontra seu ápice na celebração pascal. Essa alegria só pode ser vivida plenamente quando enxergada de maneira integral e não parcial. Ao citar o exemplo do carnaval, quis trazer à tona duas expressões dessa alegria que não são mutuamente excludentes: uma que provém de uma celebração sadia e outra de um retiro religioso. Prosseguimos então explorando a mentalidade pretensiosamente católica que sugere esta como a única forma possível de experimentar a alegria cristã. Essa mentalidade, de forma genérica, é caracterizada pela aversão ao mundo secular. Tratamos então de expor a forma como o catolicismo abarca o todo, inclusive aspectos seculares e protestantes, demonstrando o equívoco da visão pseudo católica que repugna o secular. Demos mais um passo, expondo como não somente a visão estava equivocada, como também escondia algo mais profundo: a incompreensão da vocação do leigo. Mostramos, então, o chamado primeiro do leigo. Dois pontos ainda me fazem refletir e sobre eles ainda gostaria de dizer algumas palavras.

O primeiro dos dois últimos pontos diz respeito à maneira como se dá tal apostolado no ordinário. Há ainda uma característica comum aos já referidos partidários do carnaval com Cristo que merece atenção. Não digo que procuram isolar-se do mundo. Têm suas obrigações seculares que não podem deixar de lado, apesar de fazerem de mau gosto. Ocorre que a dimensão do testemunho está presente na sua mentalidade. Todavia, o que entendem por testemunho são, costumeiramente, manifestações exteriores de sua fé: bíblia e outros objetos religiosos na mesa de trabalho, crucifixo, escapulário, roupas com estampas sacras, falar importunamente de assuntos religiosos. A Lumen Gentium (n. 31) também fala sobre o testemunho do leigo, mas o que é apresentado parece ser bem distinto. Os leigos chamados por Deus para que concorram, exercendo o seu ofício, cumprindo com o seu dever, para a santificação do mundo a partir de dentro. O exemplo usado é o fermento e não a cobertura. A todo bolo que cresce é atribuída a causa ao fermento, ainda que este não seja visto exteriormente como a cobertura ou o glacê. O essencial não precisa ser exterior. Continua dizendo que a manifestação de Cristo aos outros se dá pela irradiação da sua fé, esperança e caridade. Atenho-me ao termo irradiar, pois este se refere a emissão de luz ou calor a partir de um ponto. O calor externo do cristão deve ser uma consequência de um evidente fogo interior, e não mero calor. Assim como a luz solar claramente tem o sol como fonte, a luz do cristão precisa naturalmente levar os que o circundam a compreender sua fonte. E isso só é possível quando há uma mudança interior cujos reflexos são notados exteriormente e não mera fachada. Os itens religiosos são secundários frente às atitudes justas e o bem desempenhar de seu ofício. Os itens religiosos, isolados de uma vida íntegra, podem mais repelir do que atrair. A hipocrisia é rápida e facilmente posta às claras.

O cristão não precisa estar constantemente se recordando de que precisa dar testemunho, pois o testemunho autêntico é a mudança no ser – e não no parecer – promovida pelo encontro com Cristo e expressa de forma singular na descrição que se faz dos hábitos dos primeiros cristãos no capítulo quinto da carta à Diogneto, resumida na primeira frase do capítulo sexto que faço questão de transcrevê-la: em poucas palavras, assim como a alma está no corpo, assim estão os cristãos no mundo. A mudança no ser atrai. A mudança no parecer repele. Por isso o trabalho bem realizado contribui mais para a edificação do Reino do que uma camiseta religiosa.

Se por um lado há o prejuízo causado pelo parecer, que afeta os outros, há outro, tão adverso quanto o primeiro, mas que afeta aquele que encara o mundo secular, o trabalho e a vida cotidiana como um peso. Nos ensina São Josemaria Escrivá que há algo de santo, de divino, escondido nas situações mais comuns, algo que a cada um de nós compete descobrir. Não duvidem, meus filhos; qualquer modo de evasão das honestas realidades diárias é para os homens e mulheres do mundo coisa oposta à vontade de Deus, alerta o santo de Balaguer. Seu ensino está em perfeita consonância com o Concílio e, especialmente, com a supracitada constituição dogmática que nos diz que “todos os seus trabalhos, orações e empreendimentos apostólicos, a vida conjugal e familiar, o trabalho de cada dia, o descanso do espírito e do corpo, se forem feitos no Espírito, e as próprias incomodidades da vida, suportadas com paciência, se tornam em outros tantos sacrifícios espirituais, agradáveis a Deus por Jesus Cristo” (LG, 34).

Certa vez tive a chance de participar de um processo seletivo para trabalhar em uma universidade católica. Ainda sofria um pouco do mal de enxergar o bem apenas naquilo que é religioso. Duas coisas estavam faziam meus olhos brilhar. Por um lado, a possibilidade de trabalhar com a evangelização, unindo a obrigação secular à vontade de tornar Cristo conhecido. Por outro, a possibilidade de ter o sacrário em meu local de trabalho. Felizmente não deu certo. Pude aprender a enxergar no trabalho desvinculado da esfera religiosa sombras daquele sacrário nos mais diversos cantos da empresa e do colégio que trabalho. Pude ainda enxergar nos mais antirreligiosos companheiros de serviço sementes do verbo. Esforço-me para me assemelhar a Cristo, para me tornar de fato um outro Cristo, sendo também um outro semeador para poder cultivar tais sementes, cuidando para que cresçam.

Possíveis origens da famigerada mentalidade

Desde o princípio tenho afirmado que a mentalidade anti secular não é compreende o catolicismo. Contudo, ela está impregnada em alguns meios. Essa minha reflexão ficaria incompleta se eu não esboçasse algo sobre o que poderia ter causado tal distorção. Talvez em outro momento eu me atenha e me aprofunde nelas, mas neste pretendo apenas indicá-las.

  • Influência protestante – Como disse, o processo de batismo de algo não oficialmente católico é semelhante ao trabalho de um escultor, procurando remover os excessos que não correspondem ao catolicismo. O movimento carismático, tão presente nas paróquias, além de ser de origem protestante, tem origem recente. Pouco mais de cinquenta anos nos separam do retiro de Duquesne. Uma vez que a Igreja tem seus dois mil anos de existência, cinquenta anos é a idade de um recém-nascido. Muito já foi esculpido, mas ainda há muito a ser feito. A maior dificuldade não é retirar os excessos que sobram em demasia, mas aqueles poucos que se deve cuidar para não tirar demais e estragar a escultura. As contraposições espírito e carne e fé e razão que desembocam no desprezo pelo mundo não é católico, mas protestante, especialmente pentecostal.
  • Responsabilidade secular – Nem todos são chamados a viver de pregações e retiros. É um chamado privado que nem todos têm. Todos, porém, são chamados a abraçar os ofícios seculares e desempenhá-los da melhor forma possível – da forma cristã. Especialmente aos jovens, a vida missionária parece ser menos tediosa e mais isenta de responsabilidades do que a vida ordinária. Isso não só é prejudicial para a compreensão da vocação, como também faz com que jovens – especialmente homens – não amadureçam, vivendo numa eterna terra do nunca onde não precisam crescer e assumir suas responsabilidades.

O céu católico

A alegria do retiro e a alegria social não se contradizem, mas correspondem a duas faces da mesma alegria: Cristo. Preferir uma parte ao todo é como escolher o amarelo ou o violeta, podendo ter todas as cores. E porque o catolicismo abarca o todo, enquanto o inferno é monocromático, o céu católico não é senão um arco-íris, onde todas as cores formam uma única figura, onde todas as cores permanecem com sua particularidade.