Crônica #19 – O absurdo

Dias atrás ouvi e vi coisas tão absurdas que se não tivesse visto e ouvido juraria ser um trecho de alguma distopia no estilo de 1984 ou de Admirável Novo Mundo.

Alguns professores estavam conversando na sala que lhes é própria. Papo vai, papo vem, o assunto em questão era a diferença entre morar em casa e em apartamento, com os respectivos defeitos e qualidades.

Todos agora moravam em elevadas plataformas de concreto. Todos tinham morado anteriormente em terra firme — não digo apenas casas de perímetros urbanos, pois um deles cresceu num sítio. Éramos unânimes ao afirmar que os piores problemas eram sonoros, fruto das pouco espessas paredes das novas construções. Defendi os edifícios antigos. Argumentei que por mais que não fossem modernos, sua estrutura restringia a passagem de ondas sonoras, e que apesar de meus vizinhos de andar terem cachorro, só ouvia seu latido quando entrava no elevador.

O rapaz que viera do sítio disse que não sabia que não podia fazer mudanças aos sábados e que já havia recebido notificação por causa disso. Essa foi a deixa para que o outro mostrasse seu conhecimento condominial. Cheguei a supor que fosse ou que fora síndico de seu prédio. Afirmou que isso dependia da convenção interna do condomínio, que parte considerável dos residenciais londrinenses permitiam em horário comercial, incluindo manhãs de sábado. Fez uma pomposa consideração sobre regimento interno do condomínio, infrações e multas. Parecia entendido do assunto.

Como um caminhão carregado, sem freio, em uma ladeira, desandou a falar sobre a consciência que o morador de apartamento deve ter. Em primeiro lugar, ele precisava se tocar de que certos costumes próprios dos que moravam em casas não eram apropriados aos moradores de apartamentos. Ouvir músicas em volume elevado, bater portas e janelas com força e arrastar móveis em horário não comercial estavam entre os costumes enunciados. O outro interviu, afirmando que havia um barulho pior do que todos esses. Tive de concordar. Paredes finas são atentados contra moradores que não desejam ouvir ruídos decorrentes da intimidade de casais vizinhos. Prefiro não entrar em detalhes para manter o decoro deste espaço. O especialista também assentiu.

O embalo foi retomado. Os hábitos impróprios foram novamente numerados. Música alta, bater as portas, arrastar os móveis, falta de comedimento nas relações conjugais, ter cachorros. Sua feição mostrava o desprazer que sentia ao se recordar de experiências caninas passadas. O incômodo latido dos cães mereceu uma ou outra consideração, além de discorrer brevemente sobre ocasiões que lhe causaram aborrecimento.

Fez uma pausa. Sua expressão de desgosto parecia ser fruto de uma peça pregada por sua memória que o fez reviver o sofrimento causado pelo mau costume recordado. Não conseguia imaginar o que poderia ser pior que o ardido latido dos cachorros do andar. Não poderia ter previsto o absurdo que ele estava prestes a falar. Adicionou crianças pequenas ao balaio dos inconvenientes que pessoas que moram em casas estão mal-acostumados a levar para apartamentos. Fiquei sem reação. Não tive sequer que disfarçar, pois não consegui nem reagir.

Não é incomum ver manifestações de repúdio à equiparação de filhos a animais de estimação por parte homens de bom senso, tampouco o é vê-los abominando a mentalidade hedonista dos que se recusam a abrir-se à vida para poder aproveitar aquela coisa que chamam de vida, uma mistura de estabilidade, viagem, conforto e outros prazeres. Para endossar sua tese, utilizam de imagens de pais andando com seus filhos presos à coleiras, bem como de estabelecimentos que proíbem a entrada dos pequenos. Sempre imaginei que fossem hipérboles gráficas, caricaturas, meros recursos para ilustrar seus pensamentos. Estive diante de uma caricatura que de deformação e exagero, de grotesca ou jocosa, nada tinha. Era verossímil à realidade.

Ter enquadrado os pets na categoria de costumes caseiros que deveriam ser abandonados por moradores de apartamentos já me parecia ser equivocado. Apesar de eu concordar que o incômodo causado, discordo da classificação. Ora, enquanto mudanças em horários impróprios, música e outros barulhos desagradáveis são passíveis de penalidade – leia-se “multas” –, a posse de cães pode estar amparada pela convenção condominial. Ao optar por ser residente daquele lugar, o morador deveria estar consciente de que aceita os termos do regimento interno. Se este permite que se possua animais domésticos, aquele que opta, livre e espontaneamente, por morar no condomínio, aceita, livre e espontaneamente, a possibilidade de todos os seus vizinhos de andar, assim como o de cima e o de baixo, possuírem cães e outros pets, com os ruídos próprios de sua espécie.

Entre os animais domésticos e as crianças há um abismo de dignidade. Fiando-se, porém, na legitimidade, tem-se, por um lado, uma lei positiva, própria da vida social de um determinado povo de uma determinada época, por outro há uma lei natural que costume algum pode alterar. Na cabeça daquele rapaz, há duas espécies de homem: os que vivem em casas e procriam e os que moram em apartamentos e são estéreis, os caipiras e os modernos, os retrógrados e os evoluídos. Os edifícios são reservados aos homens da ciência e do progresso. Aos homens primitivos, restam as casas. Ouso dizer que os ainda mais primitivos – aqueles que têm mais de dois filhos – são alocados, em seu esquema mental, em sítios e cidades isoladas da informação.

Bendito seria o homem da ciência que com o conhecimento adquirido não ensoberbecesse. O balão de gás hélio só é vistoso enquanto está seguro nas mãos da criança. Quando não se prende a nada, não só perde sua exuberância como também deixa de existir. Sua existência é condicionada ao que proporciona aos olhos. Sem rumo, sem limite, sem que ninguém o segure, some à vista. Não há mais razão para existir. Exceto se algum pássaro raro tenha desenvolvido apreço por balões de crianças descuidadas que o deixam voar. O homem moderno se assemelha ao balão solto. É um adorador do progresso a todo custo, ainda que ele o leve à troposfera. O aumento da facilidade para ter acesso às informações não se deu junto ao crescimento da humildade – base da sabedoria. Sua soberba o fez romper com toda sabedoria proporcionada pelo senso comum. A tradição passou a ser entendida como obscurantismo. O caminho seguro pelo qual nossos antepassados passaram foi descartado por amor ao progresso, ainda que este o leve ao abismo – ou à troposfera, se não tiver estourado no caminho. A etimologia de humildade nos leva ao vocábulo grego humus, que significa terra. A terra é rejeitada pelo homem da ciência. Pouco lhe importam os mapas que a tradição – cartógrafa por excelência – já produziu em sua milenar experiência. É um navegante que despreza as recomendações dos antigos, que tenta atravessar o estreito de Drake1 com um frágil navio. Despreza pelo simples fato de não ser algo moderno, ou mesmo científico, catalogando logo como retrógrado.

A soberba do doutor não o permitiu perceber o que o mais simples camponês perceberia sem grandes esforços. A raça evoluída dos moradores de apartamentos estéreis duraria apenas uma geração. Exceto se os deuses científicos concedessem aos seus fiéis o prodígio de uma prole que nascesse jovem – pulando a adolescência, para diminuir seus tormentos.

Ó adoradores do progresso, peço que abram uma exceção em seu culto, que seja essa a exceção ao sábado, seu motivo de vida ou morte2, ouçam o que diz Agostinho:

Observa a árvore. A fim de crescer para cima, primeiro cresce para baixo. Primeiro finca sua raiz na humildade da terra para depois lançar suas grimpas ao alto céu.

Ainda atônito por conta do ocorrido da manhã, permaneci ruminando o triálogo pela tarde. Estava indo ao mercado quando tive de desviar de uma moça que tinha em uma das mãos o celular que a distraia e na outra uma coleira típica de pets. Ela sequer olhava por onde estava andando. Estava encerrada em seu universo smartfônico, jogando algum jogo repetitivo viciante, deslizando seu dedo sobre a tela para ver o próximo story. Nada de anormal. Gosto de pets. Logo voltei para o que estava na outra ponta da coleira, para até mesmo brincar se visse que sua dona me dava esta liberdade. Novamente, perdi toda a capacidade de reagir. No outro extremo havia um pequena e linda menina. Roguei a Deus que me acordasse. Não estava dormindo. Era apenas a terra dos degredados filhos de Eva.

1 – Situado entre a extremidade sul da América do Sul e a Antártica, o estreito se concentra no oceano Antártico. É conhecido por ser uma das zonas com piores condições marítimas para navegação, em virtude do clima da região. Sob condições meteorológicas preocupantes, o estreito de Drake recebe a alcunha de mar mais perigoso do mundo. Essa passagem é um verdadeiro cemitério de navios, que afundaram aqui há alguns séculos, até a abertura do Canal do Panamá.
2 – 1 Mac 2, 41.