Crônica #23 – O caminho até a praia

Há uma série de eventos que ocorrem quando se decide ir à praia.

Se voltarmos ao que se segue à origem da ideia de viajar, veremos que houve o aperto nos gastos para economizar o necessário para bancar a ida. Por um lado, ter de evitar de gastar é ruim, é algo que nos remete à tristeza. Imagine você querendo sair para comer algo bacana e não poder porque o orçamento não permite. Contudo, esse amargor é necessário para que um melhor sabor seja experimentado. É graças a pequenos descontentamentos que é possível alegrar-se à beira-mar.

Dá trabalho arrumar as malas. Dá trabalho conseguir colocar tudo no carro. Às vezes mal sobra lugar para os passageiros. Mas ao mesmo tempo, esses pequenos desgastes têm sentido. São parte do processo.

Há também uma alegria nessa preparação. O banhista em potencial se empolga. Nas vésperas, não vê a hora de chegar o dia de partir. Mas essa alegria da preparação, mesmo válida, ainda não é aquela que terá na praia em si.

Quando descemos, como boa parte do povo da região nortenha paranaense, costumamos parar no Soledade. Considero o Soledade a sombra da praia. Estar lá é estar em clima praiano. Fico feliz porque sei que estou a caminho. Mas, da mesma forma que a alegria da véspera, ainda não é a mesma de estar na beira do mar, de ficar com os pés empanados de areia.

Há também os pedágios. Esses, definitivamente, não trazem alegria. Mas os pagamos porque fazem parte do processo. Se pudéssemos, certamente não pagaríamos, mas são necessários, são parte do caminho para chegar à praia.

A alta temporada traz consigo outro estorvo: o trânsito. Tanto para contornar Curitiba quanto em Santa Catarina. É uma amolação ficar parado. Mas, mesmo sabendo que haverá trânsito, insiste-se em enfrentá-lo. Afinal o transtorno é pequenino perto do prazer de se desfrutar de uma praia.

Ali pelas bandas da Havan de Barra Velha que tem uma baita estátua da liberdade — talvez fora ela que amedrontou o Daciolo por sua imponência — já é possível ver o mar. Falta pouco. Já se pode sentir a brisa marítima. Isso nos alegra, mas essa alegria ainda é uma sombra daquela que é estar no litoral.

Uma amiga certa vez me apresentou um dúvida que a incomodava. Já tinha ouvido falar que Deus quer a nossa felicidade aqui por estas bandas terrestres. Ouviu também que não pertencemos a este mundo, que estamos por aqui como peregrinos, nos restando apenas a cruz. Não sabia, porém, como conciliar realidades, aparentemente, antagônicas. A incerteza do futuro estava afligindo-a. Tive uma intuição. Perguntei-lhe para qual praia costumava ir. Respondeu que era Balneário Camboriú seu destino costumeiro. O litoral de Santa Catarina muito agrada aos paranaenses. Tentei esboçar uma resposta a essa questão pertinente começando com o que escrevi acima. Prossegui como prosseguirei abaixo.

Você me pergunta se Deus quer a nossa felicidade ou a nossa cruz. Eu te respondo que Ele quer ambos. É impossível que em sua infinita bondade Deus queira nossa tristeza. Por que a cruz então? Às vezes para nos provar, às vezes para nos amadurecer, às vezes para entendermos que não basta apenas o nosso esforço. Não nos cabe questionar a utilidade dos desígnios divinos.

Nós permitimos que nos furem com uma seringa, sofremos, mas sabendo que aquela dor é parte do processo para nos deixar saudáveis.

Deus permite que agulhas nos furem. Jamais, contudo, permite um mal sem que este seja necessário para nos levar a um bem maior. Estes males são como a arrumação das bagagens, o poupar dinheiro, o pedágio, o trânsito. Por si só, são males. Porém, quando enxergamos um sentido nele, são parte do processo para alcançar uma alegria maior que a de gastar dinheiro/não pagar o pedágio/não pegar trânsito.

E a felicidade que ele nos concede? É como a alegria da véspera, de estar no Soledade, de sentir a brisa. São alegrias que em si mesmo não encontram seu maior sentido, mas sim quando as enxergamos como um vislumbre da praia. A felicidade que Deus nos concede aqui na terra é mera sombra da eternidade. Quando nos apegamos demais à elas estamos como que abrindo mão de ir à praia para ficar no Soledade o que não faz sentido algum.