Crônica #15 – O anjo de estola

Ir à Missa em Schoenstatt pela manhã é sempre especial. O Santuário, a pequena capela, réplica do original, é um oásis em meio ao caos do centro de Londrina. O formato, igual ao de todos os outros santuários, lembra uma pequena casa cujo telhado se dispõe de forma a ficar ainda mais inclinado, remetendo ao próprio céu – o que faz sentido, uma vez que o caminho para ele se situa em seu interior. Onde as águas do telhado se encontram, emerge um sino e uma estrutura protetora, portanto em seu topo uma pequena cruz. A parede frontal é revestida, quase que completamente, por alguma espécie de hera. Revestimento esse interrompido apenas pelo arco onde está a porta de madeira que permite a entrada dos peregrinos que contribuem com o capital de graças. A entrada para aqueles que vão à Missa é distinta da daqueles que vão unicamente ao colégio. Deixo para que os participantes do movimento daqui de Londrina me digam se o colégio Mãe de Deus está situado no Santuário ou vice-versa.

Entre a réplica do santuário original e a capela maior, situada num patamar superior, onde se celebra a Santa Missa, há ainda uma bela mangueira que em temporada de manga torna-se perigosa. O prazer de ler debaixo de sua sombra faz valer a pena o risco que se corre de ser atingido por uma fruta madura.

Não apenas a estrutura física do Santuário é acolhedora e atraente, mas também – e principalmente – a espiritual. Participam da celebração matutina – a celebração de vésperas precisa de um capítulo à parte para não me alongar mais do que de costume – majoritariamente as irmãs de Schoenstatt. Sempre gostei de chegar com antecedência para acompanhá-las em suas orações e nunca as encontrei para repetir em casa. Para acompanhar a profunda espiritualidade das irmãs, apenas um sacerdote que cultive bem sua vida interior. Este é o Padre Fiori. Na manhã de hoje, durante sua homilia, enquanto comentava sobre o Evangelho – em especial sobre o trecho “guardai-vos de menosprezar um só destes pequenos, porque eu vos digo que seus anjos no céu contemplam sem cessar a face de meu Pai que está nos céus” – chamava nossa atenção à realidade dos anjos da guarda como um cuidado do bom Deus para com os seus. Ouvindo as palavras daquele grande padre não pude deixar de aludir ao cuidado particular do Senhor que me presenteou com mais de um anjo da guarda, mas apenas um que vestia estola e casula.

Estava nos meus primeiros anos da faculdade, ainda pouco familiarizado com a vida em Londrina, sem uma paróquia fixa, sem uma comunidade, sem um pai espiritual. É um processo comum que ocorre com jovens de cidades menores que vêm morar temporariamente em Londrina – ou qualquer outra cidade universitária – para estudar. Necessitando do sacramento da Reconciliação e sem ter a possibilidade de voltar à Porecatu no final de semana, decidi recorrer às confissões que eram atendidas na catedral. Segunda, quarta e sexta-feira eram os dias da misericórdia, das duas às quatro da tarde. Todavia, aquele que chegasse às duas sairia apenas às quatro.

Talvez uma hora se passara desde que chegara. Enfim fui atendido. Ao adentrar a sala de confissões, me deparei com um grande crucifixo sobre a mesa e um padre cujos olhos pareciam cerrados. O sol pareceu esconder-se atrás de alguma nuvem apenas para que aquele ambiente adquirisse ares sombrios. Era apenas a aparência. Ali, naquela sala, aquele padre não quis apenas saber daquilo que me desumanizava, mas também do que me tornava quem eu era – apenas uma forma poética para dizer que ele queria saber de onde vinha e o que fazia. Descobrindo que era de Porecatu, comentou pela primeira vez sobre as escadas da Matriz, “Não se fazem mais escadas como aquela, com degraus suaves, pensando em poupar esforços de quem as sobe”. Provavelmente não com a mesmas palavras, mas volta e meia falava das boas escadas da igreja porecatuense. Sabendo que eu era universitário e conhecendo a fome de verdade que todo homem possui, percebeu que no meio em que estava inserido corria o risco de me alimentar com lixo e com ele me contentar. Sua sensibilidade o fez me orientar não somente espiritual, mas também intelectualmente. Com um forte abraço nos despedimos, pois percebemos que estávamos conversando há mais de meia hora e muitos aguardavam do lado de fora para serem atendidos. Naquele encontro eu conheci meu anjo da guarda de estola.

No mês seguinte voltava àquela fila da misericórdia. Tendo passado mais de trinta dias, haveria alguma chance daquele padre se recordar daquele jovem? Quatro semanas, três dias por semana atendendo no mesmo lugar, talvez cinquenta confissões por dia, centenas de pessoas atendidas no mesmo lugar. Quase improvável recordar-se.

Subindo mansamente os degraus da entrada lateral da catedral, trazendo no andar marcas do tempo, portando sua típica bolsa de mão preta, vestindo uma camisa preta e clergyman, de olhos quase fechados, entrava o padre Fiori. Nossos olhares se encontraram, dando um ar nostálgico à cena. Sua primeira reação foi, ao invés de direcionar-se à secretária ou à sala onde atenderia confissões à posteriori, aproximou-se de mim com um olhar curioso. Parecia tentar desvendar algum mistério. Estando de pé diante de mim, levantei-me para cumprimentá-lo e mendigar sua bênção. Suas primeiras palavras foram algo como “escuta, de onde eu te conheço mesmo?”. Quase improvável, mas quando Deus designa uma missão a um anjo, este não se esquece da face do confiado pelo Altíssimo a sua proteção. Ao falar que era o moço de Porecatu, estudante de engenharia elétrica, imediatamente recordou-se e voltou a elogiar as escadas da Matriz e o cuidado que quem as projetou teve com quem a subiria. Naquele dia, providencialmente, ele me passou seu número de celular depois de outra meia hora de diálogo.

Depois de mensalmente recorrer a sua orientação nas tardes de sexta, o peso da carga horária da engenharia recaiu sobre a minha rotina. Não havia mais tardes livres que coincidiam com o que em que o Pe. Fiori atendia. Tive de recorrer ao seu celular. Naquela ligação sugeriu que eu fosse à Missa em Schoenstatt pela manhã, a qual era por ele celebrada, e também me convidou para tomar um café em seguida – mal sabia ele que aquela não seria a única que vez o procuraria.

A missa das seis e meia da manhã de Schoenstatt fizeram parte da minha vida universitária. Não a frequentava semanalmente, mensalmente talvez, quando o desleixo não se apoderava de mim. Fato é que, entre os dias na UEL, havia os ruins, os normais, os bons e os que ia a Schoenstatt antes da aula. Naqueles dias me alimentava física, espiritual e, em especial, intelectualmente. Em meio a conversas vãs e superficiais, os desjejuns com o Padre Fiori eram sempre abundantes de sentido e profundidade, um verdadeiro farol para estes tempos turbulentos, pois, como os anjos do evangelho, ele era impulsionado – e mesmo incendiado – pela contemplação da Verdade. Por tudo isso não temo dizer que o padre Fiori é um anjo de estola.