O cancelamento e outros moralismos

Outro dia estava revendo um debate entre o Olavo e um frei na PUC, mediado pelo Cortella. Sem cabelos os poucos e brancos cabelos de hoje, mas vestido com a mesma elegância. O velho sempre foi um grande debatedor. Era o seu auge como polemista. Queridinho da plateia, mas sempre odiado por alguns renomados. Seu estilo contrapunha-se ao de seus oponentes. Enquanto estes tinham discursos engessados e técnicos, aquele falava a linguagem do povo embebida discretamente da mais alta filosofia, o que ele chama de genuíno estilo brasileiro de alta cultura e que espera de seus alunos, “inseparavelmente popular e erudito, engraçado até ao ponto de matar de rir, com clarões de lucidez escandalosa que pareçam loucura à primeira vista (…) profundamente cristão sob uma aparência enganosamente obscena. Aristóteles no programa do Alborghetti. Cogito ergo Mussum”.

Quando entrou em pauta o escândalo Lewinsky, Olavo arrancou sonoras gargalhadas da plateia, do mediador e do seu oponente quando disse não ver crime na relação extraconjugal do ex presidente americano com sua estagiária e acrescentou que muito pior que transar com a secretária era transar com a mulher dele. Engraçado ao ponto de matar de rir. Quando, porém, é questionado se o cristianismo é responsável pela rigidez moral com que o caso Clinton é tratado, surpreende a todos. Ele estabelece um paralelo entre o aumento do moralismo e a redução da influência da religião na sociedade. Menos religião, mais moralismo. A moral na religião é matéria de ensino e busca da perfeição. Se alguém falha nessa busca, não é condenado à prisão ou ao pagamento de alguma multa, mas chamado à penitência. Chamado, pois não é obrigado a fazê-la, enquanto multado ou condenado, não tem escapatória. Deve-se acertar contas com Deus e não com o Estado. A sociedade moderna suprime o divino, mas mantém a moral. Esta se torna absoluta e o descumprimento de normas morais acaba implicando não mais em penitências em busca de uma ascese, mas em mera punição. Peca-se não contra Deus, mas contra a sociedade. Nela vale-se o ditado: aqui se faz, aqui se paga. O velho foi, mais uma vez, genial. Um clarão de lucidez escandalosa que parecia loucura à primeira vista.

A moral absolutizada é evidente em dois movimentos dos nossos dias: o politicamente correto e a cultura do cancelamento. Geralmente, este é uma consequência da desobediência daquele. A Igreja sempre distinguiu claramente pecado do pecador. A avareza era condenada, o avarento, quando arrependido, absolvido. O cancelamento foca no cancelado. Geralmente, famoso. A feroz horda de canceladores não sossega enquanto não consegue cancelar contratos de trabalho e de patrocínio, humilhando o cancelado pela exposição. Aguardam sua cabeça. Quando, depois de todo prejuízo, a confissão e o pedido de desculpas chegam, o novo deus absolve, mesmo sem saber se ela é sincera ou não. Não preocupam-se com isso. O importante é destruir a vida do alvo da vez enquanto não curvar-se a eles.

Desconfie de quem ostenta virtudes em público e prega seu moralismo em defesa de um politicamente correto. Talvez o cancelado da vez seja aquele influencer, youtuber e eterno adolescente que há meses tenta impor qual é o comportamento correto diante da pandemia e cancelando aqueles que furavam a quarentena, mas foi visto – e filmado – jogando futebol com amigos nesses dias. Semelhante caso ocorreu com aquele governador que endureceu as restrições do comércio, mas viajou para os States e foi fotografado sem mesmo uma máscara em uma loja das terras americanas. Entre outros casos, há ainda o daquele diretor de humor da famosa emissora que endossou uma campanha contra uma tal cultura do estupro e foi denunciado por algumas mulheres por assédio moral e sexual. Esses não sofreram tanto com as consequências do cancelamento por defenderem uma agenda semelhante à dos canceladores, mas esse não é um assunto para agora.

Estou longe de dizer que a hipocrisia é um problema moderno, atrelado a sociedade na qual a moral substitiuiu o próprio Deus. A antiga religião sempre teve os fariseus entre os seus fiéis. Também esteve presente nos exames de consciência da religião verdadeira. A diferença é que a Igreja enxerga o mundo sob a perspectiva de Queda e Redenção, enquanto os canceladores mantém aquela e trocam esta pela Condenação. Eles têm o cancelamento, nós, o confessionário.