Crônica #16 – Pré wedding

Era ensurdecedor o silêncio que pairava naquele lugar. Estavam ambos desolados. No fundo da casa dela, onde se encontravam, havia uma área de lazer que continha, entre outras coisas, uma churrasqueira e uma pia, separadas do resto do espaço por uma espécie de barzinho em alvenaria, cujo topo era revestido de uma pedra de mármore escura. Alguns armários, TV, geladeira e uma longa mesa de vidro também ali se encontravam. Nesta mesa, ele se debruçava, apoiando sua testa no vidro. Ela era sustentada por seu cotovelo apoiado sobre a mesma mesa. A qualquer momento, porém, poderia desabar. O peso que carregava logo a sucumbiria.

Sobre a mesa, além da testa do rapaz e do cotovelo da moça, estavam alguns papéis cortados, fitas, sacolas, a toalha e o arranjo jogados de lado, algumas folhas, um estojo e uma lapiseira. Entre as folhas, listas de convidados, convites e uma planilha impressa contendo um amador demonstrativo de resultado do exercício. A impressora na qual a planilha fora impressa tinha apenas cartuxo preto e branco, por isso estava em escala cinza. Se, porém, tivesse sido impressa em uma onde o cartuxo colorido se fizesse presente, os números em vermelho estariam evidentes. Todavia, a cor poeticamente combinava com aquele clima cinzento.

Quando ele chegou o sol tinha acabado de se por. Daquele momento, algumas horas já tinham se passado. Os pais da moça já haviam se retirado. Estavam a sós, em um silêncio eloquente que os persuadia de um iminente fracasso. Sol, pais e sons não pareciam os únicos a se retirarem. A eles, juntou-se a esperança do jovem casal, há pouco recuperada.

Era uma sexta-feira à noite. Se no começo do namoro aproveitavam de ocasiões como essa para sair e se divertir, agora, decorridos alguns anos, com o casamento batendo à porta, não podiam cogitar esta possibilidade. A contenção de gastos era uma das razões. Recusavam convites, evitavam gastos supérfluos. O necessário dominava a fatura de seus cartões. Por mais que economizassem, ainda não lhes era suficiente.

Para ficar mais em conta, optaram por confeccionar o convite. Ele não era o único D.I.Y., mas talvez fosse o mais trabalhoso. Era para ser um recesso. Uma vez que um feriado caíra na quinta-feira, só voltariam a trabalhar na segunda. O tempo, porém, não era favorável ao descanso. Faltavam quase dois meses para o casamento. Ainda havia muito a ser feito. Precisavam logo terminar os convites para o quanto antes entregá-los. Na noite anterior tiveram uma discussão. Ela se queixava da solidão que sentia naquele tempo, arguiria-o de falta de proatividade. Ademais, era esquecido e desatento. Sua lentidão a incomodava. Ele, exausto, tendo trabalhado a semana inteira e viajado mais cedo naquele dia, sequer chegara a casa de seus pais. Fatigado das críticas que recebia, de explicar seu lado, se assemelhava a uma barragem sem comportas cujo fluxo da montante se intensificara. Ela gostava de fazer as coisas naquele exato momento, ele preferia pensar um pouco mais. Marta e Maria se opunham, quando a virtude estava na união do agir de uma com a meditação da outra. O ambiente, ou melhor, nenhum ambiente parecia não comportar a presença de ambos.

Aquele hiato não poderia ter cessado com palavras. Não foram elas que o começaram, não seriam elas a encerrá-lo. Voltaram ambos aos fundos, calados. Seus olhares se cruzaram, desconfiados. Rapidamente, desviaram-nos. Mas o ímã que os atraía era mais forte que o que os repelia. Pouco a pouco se aproximaram. Como se tivessem ensaiado, enquanto ele estendia um de seus braços, ela se aproximava para nele se aconchegar. Aquele abraço os uniu, desvanecendo a conta gotas o que os afastava. O mundo pareceu desaparecer ao redor deles, como se restassem apenas os dois, embalados por uma melodia que apenas o coração ouvia e os balançava como se fossem um só a dançar.

Jamais me esqueci do que ela disse naquela noite, “você me faz ser eu mesma”. A recíproca era mais do que verdadeira.