Um lugar quieto

O mundo está louco, não!? Parece que perdemos o estabilidade de nossas vidas… Nem nossa rotina, nossos empregos foram perdoados diante do invisível. Um vírus que de alguns não tira nada, de outros tira tudo. As comodidades, as conversas, os cafés da tarde, o caminhar no parque… tudo nos foi retirado. Diante dessa realidade, nos voltamos ao Evangelho de Marta e Maria. Jesus, em sua caminhada neste mundo, fez uma promessa a Maria, irmã de Marta, que nos dá uma luz nas trevas em que vivemos:

Respondeu-lhe o Senhor: Marta, Marta, andas muito inquieta e te preocupas com muitas coisas; no entanto, uma só coisa é necessária; Maria escolheu a boa parte, que lhe não será tirada.

Lc 10, 41-42

Estamos inquietos. Os jornais não param de nos bombardear com situações que adoecem nosso coração. Estamos como Martas neste tempo, cheio de ruídos no coração. Os dias passam sem sentido. Mas, existe uma boa nova: Jesus está aqui, passando em nossas vidas. É Cristo que passa, louco, louco de amor por cada um de nós! E não escutamos sua voz, pois os ruídos não nos deixam escutá-lo.

Padre Dirceu, hoje assessor da Setor Juvenil da Arquidiocese de Londrina, em uma sessão de perguntas e respostas no Instagram, perguntado sobre uma recomendação de leitura, responde com uma das mais belas obras de ascese espiritual contemporânea, um livro escrito pelo magnânimo Cardeal Sarah: A força do silêncio: contra a ditadura do ruído. Em uma passagem do livro, Cardeal Sarah é profético:

240 – Há uma verdadeira advertência para nossa civilização. Se a nossa inteligência não sabe mais fechar os olhos, se não sabemos mais nos calar, então seremos privados do mistério, de sua luz que está além das trevas, de sua beleza que está além de toda a beleza. Sem o mistério, somos reduzidos à banalidade das coisas terrenas.

Cardeal Sarah, A força do silêncio: contra a ditadura do ruído.

Sem o mistério, vamos ser como Martas, errantes por aí. Sem o mistério, ficaremos inquietos e o nosso coração nunca terá paz. Não conseguimos nos silenciar e ficar aos pés do mestre. Parece que o nosso coração precisa de um barulho, de uma imagem, de um vídeo, a cada instante, a cada momento. O silêncio é quase uma dor instalada no fundo de nossa alma. Porém Deus nos prepara o banquete da vida no silêncio de seu Coração apaixonado por nós e ainda proclama: esta boa parte não nos será tirada. Temos hoje a oportunidade de nossas vidas de entrar no quarto, fechar a porta e rezar ao Pai que está no Céu, no silêncio do Coração. Não podemos desperdiçar o que este tempo nos trouxe.

Precisamos fazer um diagnóstico em nossa vida: Dentro da oitava de Páscoa, estamos errantes, como se fosse um tempo qualquer? A alegria de Cristo, sua ressurreição, nos alcançou? Se a resposta é negativa, há algo de errado, pois, mesmo distantes dos sacramentos, a vida litúrgica deveria continuar viva no coração. Deveríamos ser as pessoas mais alegres do mundo, pois é Pascoa!

Para reconquistar o sentido pascal, primeiro recordo de uma arranjo musical chamado A Quiet Place, de Peter Sandberg, que foi utilizado como plano de fundo nas meditações da Semana Santa de 2020 do Padre Paulo Ricardo. Este lugar quieto é o calvário, em que Cristo dá a vida por Amor. Somente estando neste lugar quieto, contemplando silenciosamente a Paixão, que conseguiremos ouvir a boa nova da Páscoa, que na liturgia acontece de maneira mais que solene em um oitava: é a Páscoa do Cristo Ressuscitado.

Por fim, Santo Agostinho tem uma chave importantíssima para vivenciarmos o silêncio:

2. Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos de minha juventude, pus meu coração em coisas exteriores que só faziam me afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. Estavas comigo e não eu Contigo…

Santo Agostinho. Confissões.

O lugar quieto está dentro de você. A inquietude de Marta era porque ela estava fora. A inquietude de santo Agostinho era porque ele estava fora. A nossa inquietude é porque estamos fora. Nesta quarentena, aproveite, fecha a porta do seu quarto, acenda uma vela, silencie o coração, retire os ruídos de fora e se encontre com Cristo, no lugar quieto. E essa parte não lhe será tirada.