Breve análise:
Deus também estava lá: “A Bíblia nasceu no olhar iluminado da história” (Samuel) – 1030 – 1010 a.E.C. _ O período de profetismo de Samuel que significa na língua Hebraica “nome de Deus”. Ana deu à luz um filho a quem chamou de Samuel, porque, disse ela, “eu pedi ao Senhor”. O nome de Samuel é aqui associado ao verbo hebraico “pedir” (Sha’al). Uma das missões de Samuel foi exercer o papel de Juiz em meio às tribos de Israel, fazendo uma transição do sistema de governo tribal para o sistema monárquico e elegendo Saul como primeiro rei de Israel.
O período em que há narrativas envolvendo profetismo nascente e os profetas Natã, Gad e Samuel procura apontar para o sentido divino de sua missão e de sua autoridade diante do poder político. Mesmo assim, o rei está no centro dessas narrativas.
Jeremias: 593 a.E.C. – profecia visionária – Jeremias teve uma visão de dois cestos de figos. Um deles continha figos bons que representavam os que tinham ido primeiro para o exílio em 597 a.E.C. e outro continha figos estragados, que simbolizavam o rei e o povo que tinham ficado em Judá.
Abdias: Lamentação e desprezo à solidariedade – o profeta expressa a amargura do povo judaico contra os edomitas que invadiram Judá depois da desgraça do exílio, agravando ainda mais a situação de sofrimento.
Da fé e da esperança do povo nasce a Bíblia:
Neste período de sofrimento e de reencontro, encontramos os profetas:
Ageu – 520 a.E.C. – Ageu presenciou a disputa pelo poder depois da morte de Cambise e os primeiros anos de instabilidade política de Dario I, que se refletiram sobre Jerusalém. Ele tentou interpretar para o povo os sinais dos tempos; a pobreza e as más colheitas são uma censura à moralidade espiritual dos repatriados. “Dá uma sacudida” no povo que parece dormir estando preocupado consigo mesmo, e não se reanima a reconstruir a Casa do Senhor, porque só assim as bênçãos se multiplicarão e o povo poderá se abrir para a salvação definitiva. Viu em Zorobabel o portador das esperanças messiânicas. Ageu via realizarem-se duas expectativas do povo: a reconstrução do Templo e o retorno do rei Messias descendente d Davi.
Zacarias – 520 a.E.C. – Visões e oráculos são características deste profeta. As primeiras visões (os cavaleiros, os chifres, os ferreiros e o agrimensor) apresentaram as fazes preparatórias da restauração messiânica. As duas visões centrais (a veste de Josué, o lampadário e as oliveiras, isto é, “dois ungidos”) dizem respeito ao governo da nova comunidade. As três últimas visões (o livro, a mulher no alqueire e os carros) evocam as condições da restauração final. “Dois oráculos são em favor do “Rebento” messiânico (Zorobabel)”.
Isaías – Se deparou com uma profunda crise de esperança do povo, na reconstrução do Templo que continuava apenas com a pedra fundamental; deparou com conflitos externos com os Samaritanos e internos como que os que estavam na terra; Denunciava o pecado como obstáculo de salvação e pregava fidelidade a Deus como fonte segura de salvação. O profetismo de Isaías pregava o fim das idolatrias que buscavam apoio em falsos deuses que se entregavam às praticas de sacrifícios humanos, prostituição sagrada, uso de animais impuros para o sacrifício, necromancia, veneração de Moloc, de Meni e de Gad. Denuncia a idolatria generalizada. Pregava que o rompimento com a Aliança com Deus gerava: Extorsão, brutalidade, exploração reciproca, violações da justiça, etc. Para aqueles que acolhem a Deus haverá motivos de alegria e para aqueles que o rejeitam haverá desgraça. Para Isaías, moral e religião são inseparáveis. Um Profeta moralista? “Sim” ou “Não”? Fica a indagação. Um profeta corajoso e temente à Deus.
Joel – Tem um profetismo de cunho apocalíptico, com visões e sinais: Invasão destruidora de gafanhotos, um chamado de Deus para uma liturgia penitencial. Seca prolongada, invasão militar e manifestação do “Dia do Senhor”. Sinais que se fossem atendidos haveria o fim das pragas e um tempo de abundância. Deus julgaria as nações e com Israel triunfaria sobre seus inimigos. Haveria um julgamento novo, purificação, conversão interior, efusão do Espírito, nascimento de um povo novo.
Mais adiante, no período grego, podemos ver claramente o que previa os profetas “Amós”; “Isaías” e outros: Uma alienação religiosa; influencia de cultura e cultos na identidade israelita; total incompatibilidade com o culto que se considerava autêntico.
A difusão do espírito grego no espaço fenício-palestino não aconteceu de modo uniforme. Alexandre Magno, no início, conquistou o antigo núcleo israelita das montanhas da Samaria e de Judá e a planície costeira, e continuou pela Cisjordânia, chegando até a Tranjordânia, onde fundou a Decápolis, formada por dez cidades gregas, das quais se destaca Gadara. Alexandre Magno, de 330 a 326 a.E.C. alcançou progressivamente o oriente e chegou até a Índia. “Pouco a pouco foi assentando as bases para o grande império helenista.”
Neste período temos escritos de “2 Zacarias”; previsão e chegada dos tempos messiânicos; “Fala-se de um Rei Messias humilde, montado em um jumentinho”. (Zc 9, 9-10).
Malaquias – temos neste período alertas sobre ‘matrimônios mistos’ e a ‘Pratica inadequada do culto à Deus’; O profeta faz uma acusação contra os sacerdotes que ofereciam à Deus sacrifícios de animais defeituosos (Mt 1,7-8.13), mostrando que realizavam um culto vazio que servia a Deus (Ml 2,2).
Isaías e Jonas – que mostram preocupações apocalípticas e denunciam tempos escatológicos. “Cidade ímpia será reservada para os injustos (Is 24,10; 25,2; 26,5)”.
“A cidade santa reservada para os justos, os humildes e os pobres (Is 26,1-6)”.
Juízo do Dia do Senhor (Joel 3 – 4) “O povo novo será formado por aqueles que sobreviveram à tribulação e sã chamados pelo Senhor ao monte Santo de Sião, onde invocarão o seu nome e serão salvos. Deus será para eles o refúgio e o baluarte”.
PROFETAS E PROFETISAS NA HISTÓRIA DE ISRAEL
Na história de Israel os profetas moveram-se pela certeza. Quando o povo rompe a aliança afastando-se de Deus, acontece a exploração, a dominação e a expulsão de suas terras. Assim as denúncias mais contundentes são para o poder legislativo, a má administração que leva ao sofrimento dos menos favorecidos, na época os órfãos, pobres e viúvas. Nos tempos da monarquia e dos impérios os profetas e profetisas se aproximam mais do povo denunciando as mazelas do povo. Mas também eles preconizaram aparentemente favoráveis ao império, como exemplo o exílio da Babilônia, sendo para o bem do povo. Neste período “O Dia do Senhor” pode ser interpretado como o dia da esperança, bênção, paz, lágrimas, terror e julgamento. O papel dos profetas e profetisas não era somente falar, mas também agir para uma vida melhor do povo.
Alguns personagens são considerados como profetas apesar de não serem conforme o conceito estrito da palavra. Entre eles: Abraão: O pai de muitos, sua profecia consistia que o reinado de Salomão deveria mudar de lugar social passando de opressor para libertador. Anunciada como promessa de Deus a “Terra, Benção e Família” como a esperança no tempo do exílio. Miriam: aquela que faz ver. Sua esperança consistia em levar a alegria da libertação ao povo. Débora: chamada de profetisa, juíza e mãe de Israel. Lutadora para manter uma sociedade igualitária. Fez denúncias do desânimo das tribos e a adoração de deuses estrangeiros. Samuel: sua esperança consistia em manter a justiça ao povo, para isto, aceitou a proposta de reinado em Israel orientado por Deus. Gad: que significa boa sorte. Ele estava perto e ao mesmo tempo criticava as ações do rei Davi. Natâ: que significa Deus deu. Também atuou no reino de Davi e depois no reino de Salomão. Ele ensinou a David a Lei do Senhor. Natã usou sua profecia para manter a estabilidade social. Ele conciliava as forças do reino do Norte e do reino do Sul. Aias de Silo: que significa o “Senhor é meu irmão”. Na sua época a divisão do reino salomônico entre o reino do Norte (Israel) e Sul (Judá) mantinha-se posta e a esperança de uma renovação monárquica foi-se desfazendo com as imprudências do reinado. Não obedeciam à Lei de Deus, criaram bezerros de ouro. Elias: que significa o “Senhor é meu Deus” foi um profeta itinerante. Era visto como um precursor de Deus no juízo e na vinda do Messias. Denunciava os abusos da monarquia e pregava que Deus é o Senhor de Israel e nele deveriam confiar. Miquéias: que significa “Quem é como o Senhor?”. Denunciou os falsos profetas da corte. Sua esperança estava em que o rei também deveria ouvir o que Deus queria dizer e não somente o que queria ouvir. Elizeu: foi discípulo de Elias e o superou em milagres. Foi líder político religioso em prol da reforma monárquica e que o povo deveria acreditar que o Senhor é o Deus verdadeiro de Israel. Conseguiram devolver a esperança ao povo e eliminar o culto a
Baal. Amós: significa “O Senhor é forte”… Para compreensão dos profetas e profetisas necessita-se conhecer a realidade em que atuaram na perspectiva de denúncia, solução e esperança com a visão de um Deus justo que não tolera o sofrimento do pobre, do órfão e da viúva. A justiça divina é tão grande que chega a perdoar o opressor arrependido.
Observamos qual a visão de Deus que teve o profeta Jonas, como é descrito no livro de Jonas. Como Deus é apresentado neste livro? No livro de Jonas Deus é apresentado a Jonas como ‘Iahweh’, Deus de Piedade e Ternura, rico em Amor, lento para a Ira. A palavra de ‘Iahweh’ foi dirigida a Jonas – filho de Amati: Levanta-se, vai a Nínive, a grande cidade do inimigo povo assírio, que havia destruído o seu povo, Israel. Jonas não acredita que Deus o chama para anunciar a Boa Nova ao opressor. Jonas não crê que o opressor possa se salvar. Foge e prefere ir a uma ‘Colônia de Férias’, a cidade de Tarsis. Durante uma grande tempestade em que o mar estava agitado, para salvar a todos, Jonas propõe que ele, Jonas, seja jogado no mar. Neste lugar de incertezas, Jonas reflete; busca em seu interior; toma consciência de seus atos; fica em silêncio e enfrenta o monstro (lugar de perigo dentro dele).
A Palavra de ‘Iahweh’ foi dirigida a Jonas pela segunda vez. Ele se arrepende, vai a Nínive e anuncia a palavra de Deus. O amor, a piedade e a misericórdia de Deus, faz com que o povo mude de atitude e se converta.
Hoje, também somos chamados por Deus e por medo não aceitamos. Devemos enfrentar nossos medos internos. Cada um de nós, assim como Jonas, tem que enfrentar o medo, cada um de nós deve enfrentar o monstro (lugar de perigo dentro de nós) e como consequência ser surpreendido por Deus.
Tomemos como exemplo a perícope: “Oséias 11,1-6”
Nela, a visão que o profeta tem de Deus e Israel.
1.Quando Israel era menino, eu o amei; e do Egito chamei meu Filho.
2.Mas, como os chamavam, assim se iam da sua face; sacrificavam a baalins, e queimavam incenso às imagens de escultura.
3.Todavia, eu ensinei a andar a Efraim; tomando-os pelos seus braços, mas não entenderam que eu os curava.
4.Atraí-os com cordas humanas, com laços de amor, e fui para eles como os que tiram o jugo de sobre as suas queixadas, e lhes dei mantimento.
5.Não voltará para a terra do Egito, mas a Assíria será seu rei; porque recusam converter-se.
6.E cairá a espada sobre as suas cidades, e consumirá os seus ramos, e os devorará, por causa dos seus próprios conselhos.
Observe junto comigo que o Profeta Oséias exerceu sua atividade no reino do Norte, desde o final do reinado de Jeroboão II até a queda de Samaria (750-722) a.E.C.
Toda a pregação de Oséias está impregnada por uma experiência pessoal tão profunda que se tornou para ele um símbolo. Ele amava de todo coração a sua esposa, mas ela o deixou para se entregar a outros amantes. Essa dolorosa história conjugal, foi além do nível da frustração pessoal para ser uma enorme força de anúncio. O profeta apresenta a relação entre Deus, sempre fiel e cheio de amor, à seu povo, que o abandonou e preferiu correr ao encontro dos ídolos. Ou seja, ao amor fiel, Israel responde com infidelidade. Oséias torna-se então um denunciador de todo o tipo de idolatria que ele chama de ‘Prostituição’. Essa comparação será daí um constante nos escritos bíblicos. Segundo o profeta essas ‘Prostituições’, não consistem apenas em adorar imagens de ídolos, mas também em fazer alianças políticas com potências estrangeiras que provocam dependência, exploração econômica, opressão, golpes de Estado que favorecem interesses de pequenas minorias, a confiança no poder militar e nas riquezas e todo tipo de injustiças.
Oséias compara a relação entre Deus e Israel como a relação que existe entre Pai e Filho. Embora não compreendido, Deus permanece fiel e, no seu amor, continua de braços abertos para receber o filho de volta. Um dia seu povo cairá em si e voltará ao seu Deus. Para o Profeta, o conhecimento de Deus não é uma atitude intelectual, mas uma adesão amorosa, através de uma prática que corresponda ao projeto de Deus, elaborado no deserto por ocasião do Êxodo. Então sim: Deus receberá novamente seu povo como esposa, dispensando-lhe todo carinho ou tratando-o como Filho. Deus é amor fiel.
A Teologia Profética tem sentido nos dias de hoje quando cada um de nós faz escolhas na defesa da Justiça Social. Quando engajamos em lutas por melhores condições de vida; Quando defendemos a vida; Quando denunciamos maus tratos a outra pessoa e ou animais; Quando melhoramos enquanto pessoas enfrentando nossos medos. Que os exemplos dos profetas e profetisas da bíblia nos inspiram a sempre buscar o caminho do bem, tendo atitudes que tragam o melhor para toda a comunidade. Às vezes agimos do mesmo modo e nem nos damos conta que também somos profetas e profetisas.
